UNIVERSO TRANS E SEU ESPAÇO NA INTERNET

Por Juan Gouveia e Larissa Lins

Os produtores de conteúdo para o meio digital vêm crescendo nos últimos anos. Youtubers e blogueiros acabam conquistando uma parcela de público que se identifica com suas ideias, história de vida e assuntos tratados. A internet serve para conectar pessoas ao redor do mundo. O público LGBT também é bem representado no ambiente virtual, grandes canais no youtube e blogs se popularizaram, com a divulgação de suas causas e compartilhamento de experiências vividas por eles. Recentemente, o canal “Põe Na Roda”, que mistura humor, entretenimento e prestação de serviço, atingiu uma grande parcela de público, dos próprios LGBT’s aos simpatizantes.

‘’As aventuras de um Garoto Trans em busca de te informar e lutar pelos direitos LGBT principalmente o T, né!’’

Guilherme Daguir é vloguer e blogueiro do Recife, que trata de assuntos que envolvem o mundo transhomem. O Leão do Norte conversou com o Daguir que contou suas experiências em vida, relação com a mídia e a responsabilidade de ser um produtor de conteúdo digital. Preocupado em informar o público, tirar dúvidas e compartilhar sua história de vida, o estudante de 21 anos tem o blog há mais de cinco anos. Considera-se ativista e participou de várias lutas pelos direitos dos trans em Pernambuco, como a da busca pela aceitação do nome social em ambiente acadêmico na UFPE.

– Como surgiu a ideia de lançar o blog?

Eu via que não existia na internet muitos blogs que fossem informativos, ou seja, tiravam dúvidas, conversavam com o leitor. Como eu consumia muito a mídia trans, as maiorias dos blogs tratavam apenas  das experiências pessoais, encarava isso como um possível marketing. Comecei escrevendo os fatos psicológicos durante a transição e como ajudar as pessoas que passam pelo mesmo, mas hoje eu abranjo um pouco mais esse lado de informar os meus leitores.

– Você sente algum tipo de responsabilidade?

Há alguns meses atrás eu não sentia na pele essa responsabilidade. Foi recentemente que eu me toquei, quando eu comecei a criar mais diálogos com o meu público. Ao criar um diálogo eu posso se tornar problemático para o outro, ao instigar a busca pela opinião. Tem muitos posts que eu emito opinião e informo, mas também procuro deixar em aberto alguns pontos para haver essa reflexão. É isso, quando eu emito a minha opinião eu estou sujeito a muita coisas, de influenciar também.

– Como funciona a sua relação com o seus leitores?

Na maioria das vezes, os meus leitores se comunicam comigo através de e-mail. Eu respondo as suas dúvidas por lá. Procuro ajudar no que posso, sugerindo lugares, compartilhando experiências e indicação. Nesse processo eu percebi que o que eu escrevia fazia um efeito de certa forma aos meus leitores. Senti-me parte deles.

– Como você avalia a relação da mídia com os trans?

É claro que não há muito transhomem na mídia. As pessoas não se esforçam em buscar mais sobre o assunto e mudar isso. Fora do país é um pouco mais fácil, por exemplo, há trans modelos aparecendo em capas de revistas. No Brasil, há um pouco contato, já por ser uma parcela pequena, em comparação com a de gays e travestis. Não se leva muito transhomem para a TV para dar entrevistas, o que é preocupante. Podemos ver quando vai ao ar é porque foi algo triste ou um fato super-relevante, como ganhar um nobel. Falta representação, isso deve mudar. Na internet isso está aflorando agora, é algo muito novo.

– Como foi o processo de descobrimento?

Quando eu tinha 12 anos vi uma reportagem na TV sobre um homem trans, então me identifiquei e sentia-me como ele. Foi durante a adolescência que eu não me sentia confortável com o meu corpo, mas não tinha a esperança de que isso pudesse mudar. Depois eu descobri que tinham pessoas que pensava igual a mim e comecei, de fato, a fazer parte da comunidade LGBT. Eu entendia que eu era um menino, mas não ter essa fisionomia era perturbador.

– E a relação com a família? Eles reagiram como?

Eu decidi contar a eles aos 16 anos, porque eu desejava já começar a tomar hormônios. Eu venho de uma família evangélica e isso não foi bem aceito por eles, acharam que eu estava louco e me colocaram para fazer tratamento psicológico. Desde o ano passado a nossa relação melhorou. Eles entendem e respeitam, sabem que minhas decisões são conscientes. Porém, esse assunto ainda é um tabu, nunca vem à tona. Minha família tentou me expulsar de casa algumas vezes, mas não deu certo. A relação de respeito entre nós foi se construindo com o tempo. Nunca houve brigas físicas, mas tudo isso poderia ter sido melhor se eu tivesse um apoio dentro de casa.

“VOCÊ ESCUTAR TODO DIA QUE VAI PARA O INFERNO, QUE VOCÊ É UMA ABERRAÇÃO, NÃO É LEGAL, NÃO ME AJUDOU”.

– Com os amigos e na escola foi a mesma coisa?

Os meus amigos da época me escutavam desabafar. Eles não entendiam, mas eu continuava a contar às coisas que me perturbavam. De fato, essa aceitação foi mais tranquila em relação à da minha família. Quando eu entrei na faculdade me deparei com tanta gente diferente, isso, de certa forma, tornou ser trans normal. Lá no CAC (Centro de Artes e Comunicação da UFPE), você pode ser o que quiser. Você se sente à vontade.

– Já chegou a ter alguma situação crítica? Tentou se matar?

Ao longo de minha vida eu tive diversos problemas, por causa da aceitação, mas nunca tentei me matar. Eu percebi que se matar não era a solução. O problema não estava na vida, mas sim na forma em que eu queria viver. Era mais uma morte de espirito, por estar bem mal. Hoje em dia é bem mais fácil se aceitar. A quantidade de informação é bem maior, cenário muito diferente de quando eu tinha 16.

– Como foi o processo da transição com o início do tratamento hormonal?

O tratamento eu não comecei aos 16 anos, como planejado, mas, sim, com 19 anos. Na época até consegui o laudo psicólogo, mas não tinha o dinheiro suficiente para iniciar. Minha mãe não iria arcar com os custos. Eu considero todas as etapas de minha transição importantes. As mais marcantes foram , eu contar a minha família, iniciar o tratamento com hormônio e, agora, a mastectomia.

– Como você lidava com as disforias?

Então, a disforia é uma coisa complicada. Eu ficava muito mal, chorava muito. Tentava fugir do assunto escrevendo, lendo algum livro, me concentrando em séries novas, mas mesmo assim era um sentimento muito ruim. Eu chegava a malhar muito, três horas por dia, porque isso tava muito na minha cabeça. Eu pensava que era tudo culpa minha e que eu precisava me esforçar mais pra ter o corpo que eu queria, mesmo que, no fundo, eu soubesse que não tinha culpa nenhuma naquilo. Teve uma época que eu pedi para que um amigo me policiasse quanto as gírias que eu usava, pro caso de eu reproduzir alguma gíria ou termo que é geralmente utilizado por meninas. 

“SER TRANS É ESTAR EM UMA SITUAÇÃO DELICADA. SE FOSSE PARA ESCOLHER EU NÃO ESCOLHERIA PASSAR POR ISSO TUDO NÃO”.

– Como você avalia os outros canais na internet que, assim como você, produzem conteúdo LGBT?

Eu os acho bacanas. A maior propagação de informação sobre o LGBT’s é algo muito legal. O youtube é uma ótima plataforma, assim como os blogs, isso faz com que alcance o máximo de pessoas. Eles trazem as problemáticas vividas num olhar mais bem humorado, faz com que “brincando” abra-se os olhos para nós. Na internet podemos ver que os LGBT’s tem uma vida que foge aos conceitos impregnados socialmente, como o da prostituição. Eles estão no mercado de trabalho, fazem faculdade, são bons no que fazem. É bom acabar com aquela visão trágica antes pré-estabelecida.

– Você se inspirou em alguém para seu blog?

Esse é o meu terceiro blog, quando eu troquei de plataforma. Eu quando comecei não tinha nenhum grande blog no ar, que tratasse de aspectos que eu gostaria de abordar. Não tinha muita coisa no youtube, nem muito menos a proporção de grandes seguidores. Creio que não me inspirei em ninguém, fui fazendo e hoje é esse meu blog.

– Quais são suas expectativas para o futuro do entretenimento voltado para o público LGBT?

Tudo vai se tornar mais popular, aumentando a liberdade de falar sobre esses assuntos de diferentes maneiras. Atraindo uma visão positiva sobre o assunto. No futuro será comum falar sobre o que é ser trans. A saúde psicológica e física também irá melhorar. Acho que no máximo em 50 anos isso não será mais tabu. Se for analisar como era quando eu fui  adolescente, os LGBT’s eram mortos e agredidos frequentemente na rua, temos um significativo avanço. Espero que a tendência seja melhorar

– O que você espera do futuro do blog? Terá alguma novidade?

Meu blog anda desatualizado, não tenho tanto tempo para escrever como antes, mas eu pretendo produzir mais conteúdo para ele, mas não só conteúdo que se direcione para os trans. Desejo abranger ainda mais, tornar a causa conhecida e trazer a questão do transhomem para a mídia. Irei focar no vlog semanal. Pretendo iniciar uma série de entrevistas. Espero ter mais oportunidades, até como pessoa jurídica, empreendendo. Em breve também terá um novo layout.

– O que o governo pode trazer de melhorias para o universo trans?

O serviço de saúde deve ser analisado. Demorou anos para termos um espaço no Hospital das Clínicas, e hoje se encontra lotado. Dificuldades na marcação de consultas e a demora são pontos que devem ser revistos. Incentivar os centros trans. Facilitar as cirurgias de mama no SUS. Campanhas de ligamento entre amigos, familiares e colegas aos trans. O incentivo na divulgação de folders e criação de grupos de ajuda para pais, para que eles possam dar o apoio necessário aos filhos durante essa fase de transição e aceitação. Além do estado, a ciência deve evoluir na criação de melhorias para os transhomens.

– Sobre representatividade nos meios midiáticos, tem alguma série e/ou filme favorito que você tenha se identificado?

Eu sou fã de carteirinha do Game of Thrones, de Orphan Black e dessas séries mais populares como Orange is the new black e Sense8! Nessa questão de representatividade, tinha uma série com um personagem trans chamado Max, mas ele realmente não me representa. Não pela personalidade em si, mas embora ele tivesse momentos muito legais sobre transexualidade, ainda foi um tema muito mal abordado e confuso na série que foge muito da realidade das pessoas trans, com exceção do começo, onde aborda a questão das disforias. Acredito que essa parte representa a mim e a muita gente também.

Em Sense8 tem a Nomi que me representa muito. Em Orphan Black, tem um trans homen também, mas ele aparece bem rápido. Ele é bem legal, mesmo não tendo aparecido muito. É bissexual assumido e não tem problemas com o corpo dele mesmo não tendo feito a mastectomia. E em Orange in the new black tem a Sophia, personagem da Laverne Cox, que é mais pras mulheres, mas é muito interessante de ver em como mesmo numa prisão feminina ela ainda sofre preconceito por sua identidade das outras presas, das pessoas que administram a cadeia e até de sua própria ex mulher.

– Como você vê a comunidade LGBT, mais especificamente a questão da transmasculinidade na conjuntura política atual?

Então, ninguém defende os trans homens, especificamente. Quando tem algum grupo de apoio à causa é sempre amplo pro LGBT, no geral. Tirando a questão do ativismo, nunca vi um FTM* realmente envolvido com política; é super difícil de ser notado e isso nos invisibiliza cada vez mais. Ao menos as pessoas têm falado muito de luta por direitos humanos, e como somos humanos, talvez a realidade T melhore!

– Ainda sobre participação na política, como você vê a bancada evangélica?

A bancada evangélica é um problema nacional. São muitos raros os países que têm uma religião oficial e um IDH alto. São coisas, infelizmente, que são inversamente proporcionais.

A bancada entrou num tipo de disputa com as pessoas LGBTs e promovem coisas extremamente retrógradas e ofensivas; e a maioria do nosso país se considera cristão e é doutrinado a ser preconceituoso. É situação muito difícil tanto para as LGBTs, quanto para qualquer pessoa que não seja cristã. Isso é perigoso humana e socialmente falando. Sem contar que economicamente e politicamente, criamos um governo cego por escolha, sem pontos de vista diversificados e há uma alta porcentagem de pessoas LGBTs que colaboram para com a manutenção financeira do país. Essas pessoas têm direitos negados e sem qualidade de vida! Isso é pedir para não ter rendimento esperado para um país capitalista. A bancada evangélica tem uma briga boba e burra para defender direitos que eles não estão a ponto de perder nem de longe. Era só deixar os outros terem seus direitos também.

TransBoy, blog do Guilherme, está disponível nesse link: clique aqui

Lá você encontra todos os posts e um pouco mais sobre o universo Trans; assim como todos os links do canal do YouTube , fã page do Facebook e contato pessoal.

Foto de Capa: Divulgação/Arquivo Pessoal

 

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