É UMA DELÍCIA TRABALHAR COM CINEMA: ENTREVISTA COM LUIZ BOLOGNESI

Por Guilherme Mendes

Luiz Bolognesi (50), diretor e roteirista de cinema, carrega em sua trajetória títulos aclamados do cinema brasileiro recente, entre eles “Bicho de Sete cabeças” (2002), o documentário “Lutas.doc” (2011), “As melhores coisas do mundo” (2010) e a animação “Uma história de amor e fúria” (2013). Essas produções renderam, a ele, destaque em premiações de diferentes partes do mundo, como o Prêmio Cristal de Melhor Longa Metragem no Festival de Annecy (França).

Em entrevista ao Leão do Norte, Luiz fala de sua entrada no mundo do cinema, da crise política vivida no Brasil, das suas inspirações e de seu novo projeto; o documentário “Pajé”, que deve estrear em 2017. Além de dar dicas para aqueles que desejam seguir carreira na área cinematográfica.

-Você é jornalista e já trabalhou em grandes veículos. Hoje em dia, é conhecido por seu trabalho no cinema. Como se deu essa transição?

Eu me formei em jornalismo e também estudei antropologia; trabalhei em jornal e em televisão, fazendo texto pra TV, foi daí que veio a minha passagem para o cinema. Eu comecei a trabalhar fazendo roteiro de vídeo institucional, para diversas produtoras, e aí resolvi fazer um curta metragem em 1994/1995 e a passagem do cinema se deu nesse momento.  Eu estava com 26/27 anos de idade e acabei curtindo a possibilidade de fazer redação de tema livre e não ter que fazer um trabalho por encomenda, mas fazer um trabalho autoral. E a passagem se deu dessa maneira, o curioso foi que eu não estudei cinema, mas, até hoje, a minha grande ferramenta como roteirista e diretor são as coisas que eu aprendi estudando antropologia; isso segue muito forte comigo no meu trabalho, pesquisar e tentar entender o outro a partir dos valores do outro, sem projetar os nossos próprios valores culturais. Isso é uma marca no meu trabalho e na hora de construir, procurar e identificar personagens seja no documentário ou na ficção.

-Um de seus últimos trabalhos, o premiado longa de animação “Uma história de amor e fúria”, mesmo cerca de 3 anos após seu lançamento, parece estar mais atual do que nunca devido à crise política nacional que estamos vivendo. Enquanto cidadão, qual o seu ponto de vista em relação ao processo de impeachment de Dilma Rousseff e ao atual cenário político brasileiro?

Realmente o filme é muito atual, tanto na questão das reviravoltas políticas de uma história marcada pela desigualdade, pela ausência de democracia, pela ausência de solidariedade, pela ausência de legitimidade nos processos. No fundo, A democracia aqui sempre foi um simulacro e o que a gente vive mesmo é um estado de força: o mais forte comanda na base da porrada, através da violência, através de processos sempre ilegítimos. Tem sido assim na história do Brasil e meu filme conta isso; sem falar, também, na questão ambiental e da crise hídrica, que é uma coisa extremamente grave que nós vivemos e que o filme antecipou de certa forma e, por isso, ele é muito atual.

É curioso que o filme tenha sido muito visto lá fora do Brasil, acho que até teve mais público de cinema fora do que no Brasil, e continua, mesmo 3 anos depois, tendo lançamentos:  no dia 29 de julho, o filme vai ser lançado na Turquia e na França nas salas de cinema, um pouco antes das Olimpíadas, acho que  também por conta das Olimpiadas no Rio de Janeiro o filme está tendo novos lançamentos e eu acho que isso tem muito a ver, realmente, com o momento político do Brasil, em que o filme se torna muito atual por ser a leitura não-oficial, a leitura não chapa-branca da história do Brasil do ponto de vista dos que não estão no poder, de uma certa forma, e dos que estão resistindo e lutando ao longo de 500 anos. Eu vejo o atual momento político do Brasil com imensa tristeza, mas eu nunca achei que nós chegamos num momento de grande alegria. Não estava satisfeito com o PT, nem com a Dilma, acho que era um governo  que se distanciou muito dos ideais de esquerda, com uma visão desenvolmentista quase parecida com o governo militar, um governo muito insensível à questão ambiental e à questão indígena. Acho Belo Monte uma tragédia que foi liderada pelos governos do PT, mas, apesar de tudo isso, eu lamento profundamente esse evento que, em minha opinião, assim como na opinião de grandes analistas internacionais, tem todos os componentes de um golpe porque a retirada da presidente não foi feita de forma legítima, na medida em que a gente não está no parlamentarismo mas no presidencialismo e, no presidencialismo, não se tira presidente, a não ser em eleições.  Concluindo, no jogo democrático, no presidencialismo, que é o regime vigente na Constituição Brasileira, você só retira um presidente na eleição ou em caso de crime e, evidentemente, é explícito que não houve crime no caso do impeachment da Dilma, inclusive, a entrevista publicada do Jucá, o ex-Ministro da Casa Civil, deixa extremamente evidente que derrubar a Dilma foi um ato para parar a Lava-jato para que os corruptos do governo e ligados ao governo não fossem mais investigados. Eu vejo isso de uma maneira muito trágica, acho um momento péssimo que o Brasil está vivendo, lamento profundamente, acho esse governo absolutamente ilegítimo. Ele não tem base, ele não tem sustentabilidade e enquanto a gente não tiver um governo legitimado pelo voto, o Brasil vai estar à deriva.

-Considerando sua formação e sua visão relacionada à antropologia, o que te inspira a dirigir e escrever suas obras?

O que me motiva, sobretudo, nos filmes que faço tanto de documentário, como ficção, é o fascínio pelo outro, o fascínio pelo que eu não conheço, o desejo de compreender o incompreensível, que é a densidade, a profundidade da alma humana na outra pessoa, mergulhar nisso que eu não conheço, numa outra forma de vida; seja a vida de um adolescente de classe média/ classe média alta paulistana, seja a vida de uma pessoa já da terceira idade que insiste em viver de modo adolescente e feliz frequentando bailes da terceira idade, seja convivendo e filmando com um Pajé indígena no filme que eu estou fazendo agora. O que me motiva é o fascínio pelo que eu não conheço, o fascínio pelo outro, pelas técnicas de existência e pelas técnicas de si mesmo. Como é que eu me vejo no mundo, como é que eu me produzo no mundo, como é que eu me realizo no mundo, é isso que me move em todos os filmes que eu faço. Eu me vejo como um pesquisador de personagens, pra mim, mais do que a trama, e a história o que me fascina é me aproximar de uma personagem e tentar expressar os desígnios, o que é que a vida desse personagem na obra cinematográfica. Essa é minha busca, é isso que me move.

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Luiz Bolognesi (centro) e a equipe de “Pajé”: Rodrigo Macedo, Alessandro Valese, Carolina Fernandes e Pedro Márquez | Foto: Reprodução/Facebook
-Atualmente, você está trabalhando no documentário “Pajé” com previsão de estreia pra 2017. O que podemos esperar desse novo projeto?

O que eu acho que esse projeto vai trazer é uma visão diferente sobre os povos indígenas. A visão que nós temos, de modo geral, é muito clichê, muito estereotipada, tanto pro bem como pro mal; tanto a visão do índio vagabundo que não faz nada, cachaceiro, que é uma construção muito maquiavélica, no sentido de legitimar a tomada das terras, a invasão e a morte dos povos indígenas. Como também o outro lado, o lado extremamente romântico do índio como aquele ser ideal, um ser ingênuo, um ser puro da floresta e etc. Eu acho que o filme vai propor um olhar mais realista, mais atual e com muito respeito a essas civilizações porque até o termo “índio” é um termo equivocado, aqui no Brasil não tem índio, o índio morava na índia. O modo de nomeá-los já é um erro, já é um desentendimento. Os europeus acharam que tinham chegado às Índias e chamaram os habitantes de “índios” e assim ficou até hoje. Isso mostra que a gente nunca tentou entendê-los, então, de certa forma, eu acho que “Pajé”, o documentário que estou fazendo, se propõe um pouco a nos aproximar desses povos americanos, dessa gente, nos dias de hoje e mostrar a força, a sabedoria, a fragilidade, a luta, a angústia do dia-a-dia desses povos que têm um conhecimento, um modo de ver e uma ética com o mundo muito diferente da nossa, muito poderosa, muito consistente, muito interessante e muito desafiante para os nossos valores e eu acho que o filme vai revelar através do modo que eu trabalho, da escolha de alguns personagens que a gente vai seguir.

-Como tem sido a experiência de gravar na Amazônia?

Extraordinária. Eu e a equipe, são quatro pessoas trabalhando comigo, estamos tendo uma vivência incrível; a gente diz que a gente nunca mais quer filmar em outro lugar e que a gente só quer filmar com os índios o resto da vida. Muito intenso, muito profundo, muito desestabilizador, no bom sentido, de tirar a gente do ritmo que a gente vive e colocar num outro ritmo. Tira a gente do tempo, da pressa, da ansiedade do mundo e eles têm um outro tempo, a floresta tem um outro tempo, um outro jeito de ser.  A gente acorda muito cedo, filma muito cedo e depois, na hora do sol quente, a gente não faz nada, como eles, a gente fica ali parado, relaxado, descansando e isso está nos colocando dentro de um clima muito próximo da maneira deles verem o mundo, a relação deles com os bichos, até com as cobras e com as aranhas é tudo muito especial e cheio de significado. Eles têm uma cosmogonia, uma visão metafísica do mundo extremamente forte, consistente e que promove indiretamente, mas acaba sendo diretamente, uma ética extremamente sustentável. O respeito deles pelo meio ambiente, pelos seres do planeta, sejam plantas, árvores, até coisas é imenso e não é uma coisa como uma obrigação, não é uma coisa que vem de fora; ela nasce com as crianças porque ela faz parte da visão de mundo. Pros índios, todos os seres têm espíritos, como os seres humanos, e existe o mundo dos espíritos em que todos convivem em pé de igualdade. Então eles produzem uma visão de economia, de sociedade sustentável a partir da própria religiosidade, tudo isso é muito rico. Sem falar que a situação dos povos americanos, os chamados – erroneamente- de índios, no Brasil é muito difícil: eles são tratados com muito preconceito, ao longo de 500 anos eles têm sido tratados com uma violência abissal, é gigante a violência que eles têm recebido nesses 500 anos. Se a gente pensar que eram cerca de 8 a 10 milhões de índios e hoje são 500 mil, a gente calcula que a cada século foram mortos quase 1 milhão de índios e isso faz da questão dos povos americanos o maior holocausto do planeta e esses índios que estão hoje no Brasil são os que venceram, são os que conseguiram resistir às dores, doenças como gripe, varíola, toda violência dos brancos e aprenderam a lidar com os brancos, digeriram os brancos, se tornaram amigos dos brancos mas também não abaixam a cabeça , também têm dignidade, orgulho e autoestima. Eles são muito fortes.

-Por fim, quais dicas você daria para um jovem que gostaria de seguir carreira no mundo do cinema?

Antes de mais nada, eu acho que a primeira dica é persistência: não desistir diante da primeira dificuldade, não desistir diante do primeiro fracasso. Todas as carreiras dos meus amigos cineastas e das pessoas que eu conheço foram construídas em cima de vários pequenos fracassos, e até fracassos grandes, mas só vai para frente quem quer muito fazer, não desiste e continua fazendo. Eu acho que a dica para quem quer trabalhar com cinema é fazer exercícios. Hoje os equipamentos são baratos, dá pra fazer filme até com o celular. Fazer exercícios do que você pretende fazer, seja clipe, seja curta, seja documentário, seja até um longa metragem e postar no Youtube, postar na internet, discutir com as pessoas. E, também, procurar trabalhar com pessoas mais maduras, pessoas que já fazem, como estagiário, se oferecendo para fazer estágio em produtoras, se oferecendo para fazer estágio em vídeo institucional, em publicidade, em filmes, para checar o ambiente, para conhecer e, finalmente, estudar. Acho fundamental estudar. Se houver uma faculdade na cidade, procurar fazer, se houver cursos técnicos procurar fazer, se for na área de dramaturgia procurar aonde tem curso de dramaturgia, procurar cursos de educação à distância na internet e, com orientação de professor ou de conhecedores, mergulhar na literatura sobre o cinema, ler muitos livros sobre cinema e ver muitos filmes de todos os tipos, do gênero que você gosta ao que você conhece pouco. Essa cultura cinematográfica é fundamental para trabalhar em cinema, quem não tem essa cultura cinematográfica também não voa longe, também não dá grandes voos, dá só voos de galinha. Essa é a minha dica e, sobretudo, o meu testemunho é que é uma delícia trabalhar com cinema, eu adoro sair pra trabalhar. Hoje eu estou de folga, saí da floresta, e estou achando um saco estar de folga; eu queria estar filmando, como eu tenho filmado todos os dias de terça a domingo e segunda a gente vem na cidade fazer banco, comprar comida, descansar e voltamos pra aldeia. Na verdade, pra mim, hoje é um dia bobo, é um dia tolo, eu queria estar filmando. Queria estar com a câmera ligada atrás dos meus personagens, e é tudo muito rico, é uma troca entre o povo da aldeia e o povo do cinema. É um prazer enorme trabalhar com cinema. Todos os dias eu acordo e falo: que bom que eu vou trabalhar hoje.

Foto de capa: Greg Salibian/Folhapress | Arte: Juan Gouveia

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